Tira Mista #17 – Páscoa Parte: II

 

  

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Os 7 dias do fim do ano

Pela primeira vez na história que conhecemos, é Natal e está nevando em todo o Brasil. Isso é até hoje inacreditável. As pessoas festejam, tentam construir bonecos neve, se divertem mesmo depois da tragédia. Eu fico feliz de pelo menos ver que minha família está bem. É o meu conforto observa-los. Entretanto, logo a fartura ira acabar, não será mais possível plantar, os animais não vão mais respirar e as hidrelétricas pararão de funcionar. Ainda vivem no dia 25.

Estão cansados, mas relaxados. Estão fartos, mas famintos. Estão felizes, mas ao acordar sucumbem a dor da glacial realidade. As lágrimas começam a cair ao dia 26.

Não é apenas eu que estou aqui a observar. Depois deles, nossos joelhos fingem encontrar o solo e nossas mãos fingem socar a neve. Nossas mentes quebradas buscam entender o que iremos fazer, mesmo já sendo uma amante da resposta. As lágrimas começam a cair sem deixar marcas no dia 27.

As cabeças confusas começam a tentar apenas pensar na paz, uma que não tenha branco. Todos apenas tentam no dia 28.

Todos os planetas ominosos nascidos das mais execráveis usurpadoras possibilidades orbitam a massa cefálica de todos os presentes. É insuportável. É impossível controlar-se em desprezível situação. A dor torna-se uma mera especiaria no dia 29.

A notícia se espalha como dentes de leão ao vento. O rei morrera e o assassino herdara a coroa. Todos os súditos gritam:” Saúdam o novo rei, o mais bravo de todos os tempos. Saúdam o rei que nos trará a glória.” Um sorriso malevolente surge na face do medo, que com sua coroa sobre seus supostos cabelos, observa a multidão que agora é dominada por ele, seguro em sua majestosa e imponente sacada. Os escravos indefesos trocam de dono no dia 30.

O Fim chega e não há escapatória. Todos estão ali e devem encarar o que está por vir. Chorar ou qualquer outra ação impotente não irá ajudar. Por isso, novamente irão festejar. A sua maneira pois nem flores há para Iemanjá. A paz vencida pousa temporariamente no local. Já contam nos dedos os minutos para o final. 23 horas, 59 minutos e 59 segundos. Este é um momento único, onde fica cristalino o caldeirão fervente de emoções de cada um. Os fogos restantes são acesos com a passada do um segundo. A explosão é um contraste que 99% dos admiradores nunca viram antes. A explosão é um som que atormenta a minha alma. A inquietude me possui. Todo o sofrimento bate a minha porta. Aquele tempo inacabável me separando da vida e da morte, enquanto escutava o som da onda de choque. Debaixo daquela escola. Onde a morte nem deu espaço para o nosso sangue. O desconhecimento toma conta. O futuro toma conta. A interrogação toma conta do dia 31.

E do dia 1?

Arthur Laio

 

Neve novamente em 29 de outubro

  • 15 de dezembro, o dia em que eu morri. Era frio obviamente, assim como todos os outros dias. Não havia descanso, um contra todos. E como a maioria de todos, morri pelo frio. Estou condenado a ficar separado e imortalizado, já que não fui enterrado por pessoas, não fui enterrado na terra. Eu fui enterrado na neve pela natureza, mas eu não posso voltar a ela, não posso voltar a terra como todos. Como? Não! Não me julgue, você não está em uma situação tão diferente da minha. E quer saber, “eu era feliz e não sabia”. Vai, me julgue por dizer isso… Porém isso é verdade. Sim, é clichê falar isso, mas o que eu posso fazer se é a pura verdade. Vê, pode me julgar, mas eu continuarei a repetir como um gravador. Por que? Porque o meu gravador não é como o de outras pessoas que só gravam e repetem. O meu é um gravador crítico, ele grava e fixa o que importa, e o que é certo eu repito, claro. E adicionando também, eu não sou como os outros, que guardam o conhecimento para si. Eu cheguei a me formar mas o diploma hoje serve para nada. Mas o conhecimento sim, esse me ajudou e muito até o momento de minha morte. Mas também não é nada dentro desse tumulo branco. Como deu para perceber, com a morte ganhamos muito tempo pensar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar e falar como um gravador. Pode se acalmar tá. Te deixarei em paz, não repetirei mais e mais e mais. Mas espere, aquilo é uma pessoa? EI! AQUI! TIRE MEU CORPO DAQUI… ISSO! NESSA DIREÇÃO. Não me julgue, eu sei que não podem me ouvir. Mas fazendo isso eu não fico com peso na consciência de não ter feito algo. “A esperança é a última que morre”. Isso, pisaram em mim. EI MUNDO, ALGUEM PISOU EM MIM! Vai, fale: “Mas que exagero” … NÃO! NÃO VÁ EMBORA! NÃO! NÃO VENHA SÓ ROUBAR MEU CORPO! “…” Prelo menos agora minha pele morta pode sentir os ventos gelados, mas logo a neve me enterrará novamente. Sabe, agora eu desejo uma coisa que eu nunca imaginei que eu pensaria antes. Queria ter sido queimado vivo como aqueles estadunidenses.